Quinta-feira, Dezembro 03, 2009

"Senhor Ganso Neurótico,

Sabemos que o único privilégio do suicida é o de escrever seu próprio atestado de óbito, ainda que ele não o assine, salvo no caso das sessões de histeria, quando mesas levitam e pentelhos frisam arrepiados diante da indiscrição do fantasma. Você sabe, sempre penso em me matar, sobretudo nos dias mais quentes, mas, por enquanto, um bom banho continua resolvendo. A Amazônia na qual residi por oito anos é esta na qual o senhor vive: a Amazônia que a alucinação de Klaus Kinski fundou (os olhos dançam no pátio de recreio da loucura) quando, coberto de insetos, bradou eu não sou pago para morrer. Atrás dele talvez estivesse um Herzog armado, o revólver brilhando na fresta de metal do dia. A outra Amazônia é a habitada pelos poetas que penteiam os cabelos, Miltom Hatoum presidindo a mesa, nada além da bailarina de pantufas que aprendeu ortografia. Thiago de Melo, poeta dos ribeirinhos, sequer sabe nadar, pois sempre se manteve na parte rasa da piscina da mansão do Amazonino. Cartago precisa ser destruída por nós que caminhamos com os sapatos furados, forrados com as folhas do jornal aberto na página policial. Assim caminhava Dostoievski, que aproveitava seus ataques de epilepsia para se masturbar. Permaneça firme, por aqui também não se trepa, o congestionamento não permite. Deve ter alguma coisa de vampiro nisso. O senhor é o candiru fantástico da literatura amazonense. Mantenha o guarda-chuva aberto dentro da uretra desses parasitas, já que os tempos são de piercings e tupperwares. Que morram os românticos.

Segue anexo o abraço,

A Lontra Hiperbórea".
"Não há trinta e seis maneiras de pensar; pensar é considerar a morte e tomar uma decisão. Caso contrário, durmo" - Jacques Rigaut.

Terça-feira, Dezembro 01, 2009

“Caro CRA,

Comprei o 3 Histórias 3, pois sou invejoso, aliás, substitui o sexo pela inveja, já que ambos são a máscara de um pavor maior. O dono do sebo não tinha orelhas (bem feito), talvez por isso, segredou-me, nunca tenha conseguido manter o equilíbrio sobre sua bicicleta. Precisamos nos encontrar, próxima sexta, para tomar mais daquelas superlatas, nas quais caberiam, com folga, as cinzas de pelo menos três crianças cremadas. Beberemos para comemorar minha nova aquisição, reflexo do meu rancor, e para decidirmos o que fazer diante do fato de (você soube?) já terem aberto as inscrições, na Europa, dos cursos para formação de palhaço (ereções maravilhosas de serpentina). E estou aflito, pois, se minha pequena souber (e ela saberá), na certa quererá (sempre que posso uso esse tempo verbal, com sandálias) se matricular na cadeira de funambulismo. De modo que preciso comprar aquele revólver que você me ofereceu na última vez em que nos vimos. Traga os filmes que você ficou de copiar para mim, principalmente aquele pornográfico, estrelado por Werner Herzog e as cabras trigêmeas. Espero que você apareça lá, o que provará que você lê este blogue. Caso não apareça, julgarei que você não é meu leitor, de modo que, daqui por diante, passarei a tratá-lo como tal.

Cordialmente,

A Lontra Hiperbórea”.
Tão desesperado quanto cavalos de carrossel.

Segunda-feira, Novembro 30, 2009

Construiremos cadafalsos para todos os estagiários da literatura. Promoveremos o massacre das secretárias. Escreveremos autobiografias não-autorizadas. Foderemos a viúva de Wittgenstein, e sairemos todos de azul em um dia de chuva.
Melancolia de prostitutas aposentadas, as únicas que Kafka podia pagar, esconder sob o guarda-chuva, dentro do chapéu, deslizar entre as coxas a surda afonia de sua asma. O amor seu rosto debruçado sobre o sono, a espuma dos cílios (e cílios são as aspas dos olhos), da vulva que de súbito emerge do cansaço seu sorriso de verão costurado de crepúsculos. Kafka gostava de loiras com máscaras de gás.

Domingo, Novembro 29, 2009


Meus pesadelos são em som estéreo. Neles, o sol tem a idade de um dia, ou das vinte e quatro horas em que a luz revela a nudez pornográfica dos espelhos. Amigos se fazem devagar, assim os animais que se penteiam com a língua, o anagrama que leio nas pregas dos meus testículos. A calça que visto tem a maciez da boceta primeira, que possuía asas, seu vôo o movimento inverso do mecanismo do pássaro. O outro é o meu equilátero. Sonhei que a Alice de Carroll menstruava.

A inteligência nada mais é que a causalidade tirando as aspas para dançar. Assim as orelhas, que são invisíveis, até o instante em que seu dono resolve usar óculos. Na Europa restam cursos formadores de palhaços, nos quais mulheres se inscrevem e se apaixonam pelo professor de pantomima – pois sexo bom é sexo com mímica. Gostar de mulheres cultas, segundo Baudelaire, é paixão de pederastas. Deve-se acrescentar no rol cirurgiões, astrólogos, e ginecologistas diletantes. Goethe amou a dançarina de opereta; Joyce, a camareira do hotel. Rimbaud sodomizou a erudita e pagou um preço caro por isso. Queremos agora pagar o preço barato do amor das manicures, das operadoras de caixa, e das assistentes de telemarketing. É preciso seguir fodendo a classe trabalhadora.

Sexta-feira, Novembro 27, 2009

Insônia tatuada de ouro atravessa a noite sua demência temporária. Dança sobre a perda da memória a lerdeza da recordação. O melhor título de livro é A desgraça de ter espírito. Não lembro se o inventei, ou se o título existe (se existir, um autor russo o terá escrito). Queria esfaqueá-la mergulhada no mar, para nadar em seu sangue, entre a virgindade dos peixes, e o domínio da morte das âncoras que afundaram. Para respirar, romperia a placenta das baleias, o óvulo calcinado da tartaruga. Que meus olhos atinjam o vidro do dia. Que tinja de rubro a artéria femoral perfurada. Que eu te esqueça para sempre, no túmulo de corais, lá embaixo, a respiração eternamente atada às estrelas de sal.
ROLAND TOPOR






Poetas à mesa dividem o mesmo guardanapo.
A indiferença é a velhice da compaixão.
A verdade do corpo é o lugar anônimo da deformação.

Quinta-feira, Novembro 26, 2009

KOEN HAUSER

A loucura ganhou seu melhor dançarino. A vida, segundo Jacques Rigaut, não vale que as pessoas se dêem ao trabalho de deixá-la.
O feminismo sobrevive para além da extinção dos cursos de datilografia. Admite agora servir de escada para nulidades duplamente suspeitas ascenderem à capa da revista masculina. Estranha contradição. Os estúpidos misóginos da faculdade elegeram um Cristo com focinho de porco e corpo de Muppet Baby. Resta-nos a impotência de fazer parte desse movimento. A inteligência é uma rara forma de ignorância. Meu caralho se finge de perna esquerda para escapar à legislação vigente.

Terça-feira, Novembro 24, 2009

A mímica é o raciocínio do corpo.
A intimidade requer mentiras para ser construída. Teoria da imagem: só se é íntimo do simulacro. Ninguém é conhecido de fato. Se víssemos as pessoas como elas se vêem; se todos me vissem como eu me vejo. O corpo é a cova do espírito. Superfície brilhante que guarda o nada. Prefiro a precisão ortográfica da pornografia à extração psicológica do inacessível. Meu corpo é o corpo do perverso, pois desviado da função reprodutiva. Gozo no circuito fechado do afogamento. Meu sêmen é a raridade desses restos. Sou o instrumento de prazer do futuro cadáver. Reproduzo a morte, e só danço para celebrar o desaparecimento da lepra.

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A Lontra Hiperbórea
O que fere minha modéstia é o fato de que sou todos os nomes da História.
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