"Senhor Ganso Neurótico,
Sabemos que o único privilégio do suicida é o de escrever seu próprio atestado de óbito, ainda que ele não o assine, salvo no caso das sessões de histeria, quando mesas levitam e pentelhos frisam arrepiados diante da indiscrição do fantasma. Você sabe, sempre penso em me matar, sobretudo nos dias mais quentes, mas, por enquanto, um bom banho continua resolvendo. A Amazônia na qual residi por oito anos é esta na qual o senhor vive: a Amazônia que a alucinação de Klaus Kinski fundou (os olhos dançam no pátio de recreio da loucura) quando, coberto de insetos, bradou eu não sou pago para morrer. Atrás dele talvez estivesse um Herzog armado, o revólver brilhando na fresta de metal do dia. A outra Amazônia é a habitada pelos poetas que penteiam os cabelos, Miltom Hatoum presidindo a mesa, nada além da bailarina de pantufas que aprendeu ortografia. Thiago de Melo, poeta dos ribeirinhos, sequer sabe nadar, pois sempre se manteve na parte rasa da piscina da mansão do Amazonino. Cartago precisa ser destruída por nós que caminhamos com os sapatos furados, forrados com as folhas do jornal aberto na página policial. Assim caminhava Dostoievski, que aproveitava seus ataques de epilepsia para se masturbar. Permaneça firme, por aqui também não se trepa, o congestionamento não permite. Deve ter alguma coisa de vampiro nisso. O senhor é o candiru fantástico da literatura amazonense. Mantenha o guarda-chuva aberto dentro da uretra desses parasitas, já que os tempos são de piercings e tupperwares. Que morram os românticos.
Segue anexo o abraço,
A Lontra Hiperbórea".
Sabemos que o único privilégio do suicida é o de escrever seu próprio atestado de óbito, ainda que ele não o assine, salvo no caso das sessões de histeria, quando mesas levitam e pentelhos frisam arrepiados diante da indiscrição do fantasma. Você sabe, sempre penso em me matar, sobretudo nos dias mais quentes, mas, por enquanto, um bom banho continua resolvendo. A Amazônia na qual residi por oito anos é esta na qual o senhor vive: a Amazônia que a alucinação de Klaus Kinski fundou (os olhos dançam no pátio de recreio da loucura) quando, coberto de insetos, bradou eu não sou pago para morrer. Atrás dele talvez estivesse um Herzog armado, o revólver brilhando na fresta de metal do dia. A outra Amazônia é a habitada pelos poetas que penteiam os cabelos, Miltom Hatoum presidindo a mesa, nada além da bailarina de pantufas que aprendeu ortografia. Thiago de Melo, poeta dos ribeirinhos, sequer sabe nadar, pois sempre se manteve na parte rasa da piscina da mansão do Amazonino. Cartago precisa ser destruída por nós que caminhamos com os sapatos furados, forrados com as folhas do jornal aberto na página policial. Assim caminhava Dostoievski, que aproveitava seus ataques de epilepsia para se masturbar. Permaneça firme, por aqui também não se trepa, o congestionamento não permite. Deve ter alguma coisa de vampiro nisso. O senhor é o candiru fantástico da literatura amazonense. Mantenha o guarda-chuva aberto dentro da uretra desses parasitas, já que os tempos são de piercings e tupperwares. Que morram os românticos.
Segue anexo o abraço,
A Lontra Hiperbórea".






