
Sexta-feira, Novembro 20, 2009
Quinta-feira, Novembro 19, 2009
Na escuridão, a luz é estranhamente perfeita, como cartas que nunca se cruzaram. A nudez do crânio oval que guarda o cérebro do afogado. Diz-se que preciso tomar os remédios, mas com eles não escrevo. Só fico interessante lúcido e alucinado. Quero levar tâmaras para Cleópatra, pois a fome é a linguagem universal. Sou o pássaro morto que ainda voa. Até quando? Não escrevo mais para ninguém, sequer para mim mesmo. Escrevo para que a vontade de morrer atravesse mais um dia. Mais um dia. Mais um dia. Só me vestirei de mulher novamente se eu puder menstruar. Quero novamente o carnaval dos pesadelos suspensos.
As carícias da urologia. Buracos de borracha, aberta cavidade vazia da máscara. Mulheres são máquinas de metal que umedecem. O amor, o móvel do contágio das verrugas.
Quarta-feira, Novembro 18, 2009
Por dentro, meu riso é oco como a angústia, pois cada qual carrega o peso dos próprios nervos. A noite semeada de agulhas escapa da fenda negra da sombra. Borboletas sonolentas nadam no seconal, a beleza dissolvida em seu sal de sódio, letargia da voz do ventríloquo que fala em nós seu roteiro em branco. Freqüência fantasma contaminada de pálido. A morte, encurralada pela nudez, decide pelo vestido de crisântemos.
Pesada tapeçaria da tristeza. Serpente sem garganta da noite. Velocíssimo tórax aberto, caixa de vidro que guarda a víscera.
A sangria dos pássaros em pleno vôo tinge o céu de vermelho que se diz do sol no ocaso menstrual.
Amor colorido do gerente subalterno do bordel das banguelas.
Amor colorido do gerente subalterno do bordel das banguelas.
Terça-feira, Novembro 17, 2009
Segunda-feira, Novembro 16, 2009
Van Gogh extirpou sua orelha porque não precisava de óculos. A loucura é essa lucidez que se livra do desnecessário. A estrela oblíqua sempre ameaçou cair sobre os mortos. À noite, Van Gogh pintava seus quadros com seu chapéu de aba gasta e tricotada, a qual trazia doze velas acesas em equilíbrio. Seus olhos lacrimejavam tintura de ópio. Diante deles: tudo iluminado.
A psicologia estuda a nudez dos bonecos de vidro. Diante do psiquiatra, sou o corpo sem órgãos, sem alma, mas com o cérebro tarado a taramelar:
“Como foi sua infância”?
“O eterno Natal da castração”.
“Porque o objeto da lei é o mesmo do desejo”.
“Como foi sua infância”?
“O eterno Natal da castração”.
“Porque o objeto da lei é o mesmo do desejo”.
Domingo, Novembro 15, 2009
A infância é um cadáver que arrastamos pelo resto da vida. Quanto mais apodrece, mais nossa vida se assemelha à cartografia de sua morte.
Feliz Cristo, que saltou do nascimento para seus trinta e três anos de idade. Gostaria de ter biógrafos tão mal informados quanto ele.
Desconheceremos para sempre aquela tarde entre Cristo e as cabras...
Que surjam os evangelhos apócrifos sobre a puberdade do deus homem. Relembrar a infância é foder o corpo macio da perversão.
Estou condenado a passar novamente por tudo isso. Meu novo corpo não poderá jamais esquecer. Cada nascimento que tive me individualizou frente à ruína anunciada.
É preciso suportar a felicidade fatal de existir separado para sempre. O homem é esse animal delicado que desistiu da exaustão.
Viver por desespero; trabalhar por desespero; trepar por tédio; morrer em vida; dissolver-se em nada; corrigir as leis da compreensão – o niilista ativo sonhado por Nietzsche é incapaz de existir, a única solidão digna de ser fruída é a do crime. O próprio Nietzsche só queria casar e ser feliz. Ele me enganou, todos me enganaram.
Quando morrer, morrerei logrado, como Rimbaud, que é Artaud, que é Cristo, que sou eu.
Feliz Cristo, que saltou do nascimento para seus trinta e três anos de idade. Gostaria de ter biógrafos tão mal informados quanto ele.
Desconheceremos para sempre aquela tarde entre Cristo e as cabras...
Que surjam os evangelhos apócrifos sobre a puberdade do deus homem. Relembrar a infância é foder o corpo macio da perversão.
Estou condenado a passar novamente por tudo isso. Meu novo corpo não poderá jamais esquecer. Cada nascimento que tive me individualizou frente à ruína anunciada.
É preciso suportar a felicidade fatal de existir separado para sempre. O homem é esse animal delicado que desistiu da exaustão.
Viver por desespero; trabalhar por desespero; trepar por tédio; morrer em vida; dissolver-se em nada; corrigir as leis da compreensão – o niilista ativo sonhado por Nietzsche é incapaz de existir, a única solidão digna de ser fruída é a do crime. O próprio Nietzsche só queria casar e ser feliz. Ele me enganou, todos me enganaram.
Quando morrer, morrerei logrado, como Rimbaud, que é Artaud, que é Cristo, que sou eu.
Sábado, Novembro 14, 2009
Sonho com a orgia armada nas areias da Palestina, na qual cada homem sofrendo de ereção será um concorrente de Cristo. O monstro nasce do conflito, daí ser para sempre portador da novidade. Pois o inédito está na deformação. Artaud sobre Lewis Carroll: “ele tem uma visão fecal do ser”. O verdadeiro REVELADO foi o segundo ladrão, crucificado à esquerda. Meu próximo livro será a autobiografia desses dois ladrões, que não tiveram mãe para cobrir seus corpos com a mortalha. O primeiro não teve, de fato, pois sua mãe estava morta à época. O outro também não teve, pois sua mãe ocupava-se brincando de elastecer o hímen complacente com o romano bem-dotado. Autobiografia sim, pois SOU EU ESSES DOIS LADRÕES.
Minha vida é a cópia datilografada do poema que eu gostaria de ter declamado.
"ratara ratara rataraatara tatara ranaotara otara kataraotara retara kanaortura ortura konarakokona kokona komakurbura kurbura kurburakurbata kurbata keynapesti anti pestantum putarapest anti pestantum putra" - Antonin Artaud.
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Quem sou eu
- A Lontra Hiperbórea
- O que fere minha modéstia é o fato de que sou todos os nomes da História.
